segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um pouco da alma

A alma vai-se tendo.
Ninguém a tem constantemente
nem para sempre.

Dia após dia,
ano após ano,
pode passar-se sem ela.

Às vezes,
é nos arroubos e medos da infância
que se instala por mais tempo.
Outras vezes, é no espanto
perante a nossa velhice.

Raramente nos assiste
nas tarefas maçadoras,
como deslocar uns móveis,
carregar umas malas
ou calcorrear uma estrada com as botas apertadas.

Enquanto se preenche um inquérito,
ou se pica a carne,
regra geral, está de folga.

Em mil conversas nossas,
participa numa,
e não necessariamente,
pois prefere o silêncio.

Quando o corpo nos começa a doer e a doer,
ela abandona furtivamente o seu posto.

É caprichosa:
com desagrado nos vê na multidão,
repugna-lhe a nossa luta por uma tal prevalência
e o matraquear dos negócios.

Alegria e tristeza
não são para ela sentimentos distintos.
Apenas na ligação dos dois
está ela ao nosso lado.

Podemos contar com ela,
quando de nada estamos certos,
porém curiosos de tudo.

Dos objectos materiais,
gosta dos relógios de pêndulo
e dos espelhos que trabalham assiduamente,
mesmo sem ninguém olhar.

Não diz de onde vem,
nem quando tornará a deixar-nos,
mas espera evidentemente por tais perguntas.

Parece que
tal como ela a nós,
também nós
lhe servimos para algo.

Wislawa Szymborska

Instante
,
RELÓGIO D´ÁGUA

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O ANTI-PÁSSARO

Um pássaro
seu ninho é pedra

seu grito
metal cinza

dói no espaço
seu olho.

Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.

Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura.
Apesar.

Orides Fontela,

Teia (1996)

ELEGIA (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que

o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.

Orides Fontela
Transposição (1969)

A imensa alegria de servir

Toda natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.
Onde houver uma árvore para plantar,
planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,
corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.

Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.

Há a alegria de ser sincero e de ser justo;
há, porém, mais do que isso,
a imensa alegria de servir.

Como seria triste o mundo
se tudo já estivesse feito,
se não houvesse uma roseira para plantar,
uma iniciativa para lutar!

Não te seduzam as obras fáceis.
É belo fazer tudo
que os outros se recusam a executar.

Não cometas, porém, o erro
de pensar que só tem merecimento executar
as grandes obras;
há pequenos préstimos que são bons serviços:
enfeitar uma mesa.
arrumar uns livros.
pentear uma criança.

Aquele é quem critica,
este é quem destrói;
sê tu quem serve.

Servir não é próprio dos seres inferiores:
Deus, que nos dá fruto e luz,
serve.
Poderia chamar-se: o Servidor.
E tem os seus olhos fixos nas nossas mãos
e pergunta-nos todos os dias:
- Serviste hoje?

Gabriela Mistral

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VIDA DE FOGO

Desde a minha juventude desprezei a prudência,
qualquer forma evidente de cautela e rotina.
Gritar onde soasse a voz dos cobardes.
Somente arder e sentir a intensidade
e lançar-me aos abismos do perigo,
ouvindo-me lutar na sua vertigem.
Amar a vida e ser pródigo no seu esbanjamento,
para assim inventariá-la com recordações veementes.
Vida como uma amada deslumbrante,
a quem é necessário seduzir,
beijar até ao mais íntimo da alma,
para morrer, vivendo no seu delírio,
na sua esbelta juventude, no seu contágio.
Vida que se submerge no irrepetível
e, iluminada e fértil, se derrama
na sua alegria imemorial, profunda,
elevando-se, ali, sobre o seu canto,
para trazer os tesouros do puro calafrio.

Justo Jorge Padrón,
Extensão da Morte,
Teorema

sábado, 5 de dezembro de 2009

PALAVRAS FUNDAMENTAIS

Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.

Nicolás Guilhén,
Antologia Poética,
Selecção, tradução e notas
de Albano Martins,
Campo das Letras

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Corredor na penumbra

Sentara-se ali muitas vezes
durante uma temporada
como se pudesse dispensar-se de tudo
embora sem deixar transparecer

os trabalhos interrompidos, os recursos, partidas
melhores do que aquela
não tinha a certeza se iria a tempo dessa verdade

Que seguraria ele se pudesse?

Há um momento sem explicação
em que a porta de casa nos resiste
os aspectos habituais debatem-se
em inquietante estranheza
e quando atravessamos o corredor na penumbra
os espelhos não nos reconhecem

José Tolentino Mendonça,
O VIAJANTE SEM SONO,
Assírio & Alvim, 2009